Citações

Scarlett & Rhett

«- Não te insulto. Estou até a louvar a tua virtude física. Mas, enfim, não me tomes por um imbecil, como é teu costume julgar os homens... É mau menosprezar a força ou a inteligência dos adversários. Eu não sou imbecil. Ouve: quando estavas nos meus braços, eu bem sei que pensavas em Ashley Wilkes (...) Não desconfiaste disto?
Scarlett mostrava claramente no rosto a estupefacção que a tomara.
- É pândego, hem? Até parece uma história de fantasmas. Três pessoas na mesma cama... quando só deviam estar duas. - Sacudiu-a pelos ombros, teve um soluço e sorriu - Ah, sim, ficaste fiel porque Ashley não te quis! Caramba! Eu não iria disputar-lhe o teu corpo (...) Mas o que não lhe quero ceder é o teu coração e o teu espírito pouco escrupuloso. Posso ter todas as mulheres que desejar. Insisto, porém, em guardar a tua alma e o teu coração, coisas que jamais cederei. É como a alma de Ashley, que tu também não conseguiste. Eis a razão por que me causas dó.
- Dó... de mim?
- Sim, porque és uma criança. Uma criança que chora a pedir a Lua. Que faria ela da Lua, se lha dessem? Causa-me pena ver-te deitar a felicidade pela janela fora, só porque pretendes outra coisa... que não te fará feliz. Causa-me pena porque és insensata. Ignoras que não há felicidade fora de dois seres que foram feitos um para o outro. Se eu morresse, se Melanie morresse e ficasses enfim com o teu precioso apaixonado só para ti, julgas que te sentirias feliz com ele? Pois enganas-te! Nunca chegarias a conhecê-lo, não saberias nunca o que ele pensava e não o entenderias como não entendes música, poesia, literatura e tudo o que não tem relação com dólares e cêntimos. Ao passo que nós, esposa do meu coração, podíamos ser perfeitamente felizes se quisesses dar-nos essa oportunidade, porque somos muito semelhantes. Ambos somos uns crápulas, e nada nos detém quando se nos mete alguma coisa na cabeça. Podíamos ter sido felizes, porque te amava e porque te conhecia, Scarlett, como jamais Ashley te conhecerá. E teria o maior desprezo por ti, se conhecesse... Mas não, hás-de passar a vida a suspirar por um homem que não compreendes. E eu, minha jóia, continuarei a consolar-me com meretrizes. E sou capaz de jurar que nos entendemos melhor do que a maioria dos casais.»

Margaret Mitchell, E Tudo o Vento Levou (1936, Pulitzer Prize)


«She sat at the bow of a pleasure craft a stone's throw away, under the shade of a white parasol, a diligent tourist out to reap all the beauty and charm Copenhagen had to offer. She studied him with a distressed concentration, as if she couldn't quite remember who he was. As if she didn't want to. He looked different. His hair reached down to his nape, and he'd sported a full beard for the past two years. Their eyes met. She bolted upright from the chair. The parasol fell from her hand, clanking against the deck. She stared at him, her face pale, her gaze haunted. He'd never seen her like this, not even on the day he left her. She was stunned, her composure flayed, her vulnerability visible for miles. As her boat glided past him, she picked up her skirts and ran along the port rail, her eyes never leaving his. She stumbled over a line in her path and fell hard. His heart clenched in alarm, but she barely noticed, scrambling to her feet. She kept running until she was at the stern and could not move another inch closer to him (…) Gigi didn't move from her rigid pose at the rail, but she suddenly looked worn down, as if she'd been standing there, in that same spot, for all the eighteen hundred and some days since she'd last seen him. She still loved him. The thought echoed wildly in his head, making him hot and dizzy. She still loved him.»
Sherry Thomas, Private Arrangements


«(...) - Não se iluda, essa morte foi bem qualificada de assassinato.

- E quem a classificou assim?

- O próprio rei.

- O rei! Julgava-o bastante mais filósofo para compreender que em política não há homicídios. Em política, meu caro, e sabe-lo tão bem como eu, não há homens, há ideias; não há sentimentos, há interesses. Em política não se mata um homem, suprime-se um obstáculo.»


Sobre Picasso e Dora Maar (a sua quarta mulher)

«No dia em que o conheceu, trazia um vestido, na mesma cor do cabelo e as mãos cobertas por luvas negras com rosas bordadas. Picasso estaria por aqui, sentado, quem sabe se no lugar onde nós estamos... e ela, elegante, avançou na sua direcção, com uma orgulhosa submissão, sustentando o olhar dele sem pestanejar. Sentou-se na mesa em frente (...) Calculadamente, Dora tirou a luva da mão direita, abriu a mala e do seu interior puxou uma pequena faca de ponta afiada. Colocou a mão esquerda sobre a mesa e, com a ponta da faca, picotou arrojadamente o seu contorno, numa espécie de roleta russa, alvejando o espaço entre os dedos abertos e investindo com uma velocidade e força crescentes. A sua precisão provava que já o fizera antes, mas ainda assim, não evitou ferir-se várias vezes e tingir a luva com sangue. Picasso observava-a, fascinado e voraz. Aquele era o mundo dele.»

Pessoas doentes atraem pessoas doentes. 
Está a ser muito bom ler sobre estes.
Diálogo entre Catherine Earnshaw e Nelly Dean, a ama, decorrido no mesmo momento:

Sobre o amor de Catherine a Edgar Linton

«- Antes de mais nada, ama Mr. Edgar?
- Quem pode deixar de o amar? Claro que amo.
Submeti-a, então, ao seguinte catecismo, a que não faltava acerto, vindo de uma rapariga de vinte e dois anos:
- Porque é que o ama, Miss Cathy?
- Que disparate, amo-o: isso basta.
- De modo algum; deve dizer porquê.
- Bem, porque é bonito, e é agradável estar com ele.
- Mau - foi o meu comentário.
- E porque é jovem e alegre.
- Mantenho o mau.
- E porque ele me ama.
- Indiferente, nesse ponto.
- E será rico, e eu gostaria de ser a mulher mais importante das redondezas, e sentirei orgulho de ter tal marido.
- Pior que tudo! E agora, quer dizer-me como o ama?
- Como toda a gente ama. É tola, Nelly.
- Não, não sou. Responda.
- Amo o chão que ele pisa, o ar que respira, e tudo aquilo em que toca, e cada palavra que ele diz... Amo todas as suas feições, e todos os seus actos, e a ele todo e completamente. Pronto, aí tem!
- E porquê? (...) Longe de mim estar a troçar, Miss Catherine. A menina ama Mr. Edgar porque ele é bonito, e jovem, e alegre, e rico, e a ama. O último pormenor, no entanto, não vale nada: amá-lo-ia sem isso, provavelmente, e, com isso, poderia não o amar, a não ser que ele possuísse os primeiros quatro atractivos (...) Mas há no mundo vários outros jovens bonitos e ricos, possívelmente, até, mais bonitos e mais ricos do que ele é... O que a impediria de os amar? (...) E ele não será sempre jovem e bonito, e poderá não ser sempre rico.
- Agora é. E a mim só me interessa o presente (...)
- Bem, isso arruma a questão: se só lhe interessa o presente, case com Mr. Linton.»

Sobre o amor de Catherine a Heathcliff

«Agora desagradar-me-ia casar com Heathcliff; por isso, ele nunca saberá como o amo, e amo-o, não por ele ser bonito, Nelly, mas porque ele é mais eu própria do que eu sou. Seja do que for que as nossas almas são feitas, a dele e a minha são iguais, e a de Linton é tão diferente quanto um raio de luar é de um relâmpago, ou a geada do fogo (...) Não sei exprimi-lo, mas certamente vossemecê e toda a gente têm a noção de que existe, ou deveria existir, uma existência nossa para além de nós. Para que serviria a minha criação se eu estivesse inteiramente contida aqui? Os meus grandes tormentos neste mundo têm sido os tormentos de Heathcliff, e eu observei e senti cada um deles desde o princípio; o meu grande pensamento na vida é ele. Se tudo o mais desaparecesse, e ele permanecesse, eu continuaria a existir, e se tudo o mais permanecesse e ele fosse aniquilado, o universo transformar-se-ia num imenso desconhecido. Eu não pareceria uma parte dele. O meu amor por Linton é como a folhagem das florestas. O tempo há-de mudá-lo, tenho perfeita consciência disso, como o Inverno muda as árvores. O meu amor por Heathcliff assemelha-se às rochas eternas que existem por baixo: uma fonte de pouco deleite visível, mas necessárias. Nelly, eu sou Heathcliff, ele está sempre na minha mente, não como um prazer, do mesmo modo que eu não sou sempre um prazer para mim mesma, mas como o meu próprio ser.»

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