quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

#76 MEDEIROS, Teresa, Um Beijo Inesquecível

Classificação: 4****/*

Sinopse: Laura Farleigh precisava de um marido. Se quisesse manter um teto sobre a cabeça dos irmãos, a orgulhosa filha do reitor teria de casar até ao dia do seu vigésimo primeiro aniversário. Ao encontrar inconsciente na floresta um misterioso desconhecido de rosto angelical e corpo de Adónis, que não se lembrava do nome e do passado, decide reclamá-lo como seu. Mal sabia ela que aquele anjo caído era afinal um demónio disfarçado. Sterling Harlow, o famoso devasso conhecido como o «Demónio de Devonbrooke», acorda com o beijo encantador de uma formosa jovem que lhe confessa ser ele o seu prometido. Com as faces beijadas pelo sol e sardentas, Laura é uma jovem inocente apesar do encanto feminino das suas curvas. Quando lhe garante ser ele um perfeito cavalheiro, Sterling pergunta a si próprio se, para além da memória, terá perdido o juízo. Juraria não ser homem para se satisfazer apenas com beijos - principalmente os da doce e sensual Laura. Tentando descobrir a verdade antes da noite de núpcias, um beijo inesquecível ateia a paixão que nenhum deles alguma vez esquecerá

Opinião: É daqueles livros que leio em algumas horas, compulsivamente. Sou obrigada a atribuir uma apreciação baseada no que o livro suscita em mim e não na sua qualidade literária. Basicamente fartei-me de rir com a história e, na última parte, houve ali alguns apertos de peito. Adorei a química entre o Sterling e a Laura, funcionou muito bem (algo que falta nos livros da Mary Balogh). Por muito que não seja um livro pesado, a autora levou-o a bom porto com a infância do Sterling e o que os pais fizeram por ele. Derramei algumas lágrimas quando ele finalmente lê as cartas da mãe. E é por isso que gostei mais desta Teresa Medeiros do que, por exemplo, da Patrícia Cabot ou da referida Mary Balogh (esta última repete-se um pouco nos enredos, cópias uns dos outros, e a Patrícia/Meg Cabot é inconsistente nas personagens e nas suas ideologias, querendo atribuir-lhes força e descurando a persistência. Mudam de direcção ao sabor do vento.



Nesta primeira obra que leio da Medeiros, é-me contada a história de um rapazinho que se vê privado da companhia dos pais, à mercê de um tio hediondo e da herança de um título que não lhe era destinado e que lhe sai caro. Incapaz de perdoar a mãe, Sterling torna-se numa criatura amarga e violenta que só encontra conforto na guerra. Na altura toda a Europa era um campo de batalha de lanças apontadas a Napoleão ou sob o seu comando (1815) e, tendo acabado agora o 1809, foi para mim um gosto voltar a este período.
Laura Fairleigh é arrastada para a precariedade de ficar dependente da caridade do novo senhor do casario quando a sua protectora morre. Receando pelo futuro dos irmãos órfãos compreende que deve casar o quanto antes para assegurar um tecto sobre as suas cabeças. É Sterling que, sem que ela saiba e devido a uma queda que lhe causa uma perda de memória, vai servir essa urgência.

Nada disto é novo, grande parte do livro é até "déjà-vu", mas este género é algo de confortável. Várias versões de uma mesma história, numa época em que a escolha estava bem mais limitada do que agora e, devido à complexidade do carácter de Sterling, que é sem dúvida a melhor personagem (embora Lord Thane, Diana, Lottie, George, o caseiro Dowe ou mesmo a cozinheira Cookie também sejam maravilhosamente bem individualizados e com deixas hilariantes de acordo com o carácter de cada um), me deu muito gosto "beber".
Aconselho a todos (as) amantes do género!

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

#5 A Vida de Pi




Título oficial: Life of Pi @ 2012
Realizador: Ang Lee
Banda Sonora: Mychael Danna
Actores principais: Suraj Sharma, Irrfan Khan
Classificação IMDb: 8,2
Minha classificação: 9,5
Prémios: Óscares - Melhores Efeitos Visuais, Melhor Realizador, Melhor Banda Sonora, Globos de Ouro – Melhor Banda Sonora

Sinopse: Um jovem sobrevive a um naufrágio e fica cativo numa viagem de aventura e descoberta. Enquanto náufrago, cria um laço inesperado com outro sobrevivente: um feroz tigre de bengala.
 Opinião: Para quem não sabe, este filme é inspirado num romance de Yann Martel. Infelizmente, parece que o autor esteve envolvido num escândalo por ter plagiado o enredo de um livroMax e os Felinos, de outro autor. O filme, contudo, não tem responsabilidade sobre isso. Limita-se a retratar a história de Piscine Patel, que fica 227 dias à deriva no Pacífico, com alguns animais selvagens e, por fim, um tigre, após o naufrágio do navio onde seguia com a família. 
A Vida de Pi é de uma beleza esmagadora

Por algum motivo liderou os óscares nas categorias técnicas (não que os óscares sejam exactamente sinónimo de bons filmes). Mas sim, é de uma beleza desconcertante. É mais ou menos óbvio quando um bom filme tem, por trás, aquilo que desconfio agora tratar-se de um bom livro. Tem cabeça, tronco e membros. As personagens não nos são despejadas, entranham-se em nós. Não vêm do nada, mas sim de algo que nos é compreensível. 
Quanto à Índia, haverá sempre um certo exotismo a envolve-la, e neste filme essa magia esteve presente. A coexistência de hindus, católicos e muçulmanos na mesma comunidade tanto pode gerar conflitos, para mentes fechadas – religion is darkness, como uma das personagens diz no filme – como pode trazer grande riqueza cultural e interior a quem estiver aberto ao respeito e à compreensão. Pi (Piscine Patel, aliás) é assim. A própria história do nome da personagem principal leva-nos para dentro dela: Piscine, Pissing, Pi, e a conexão com o 3,14 da tão odiada matemática tornam o filme em algo de maior. É uma aprendizagem interior através da fome, da solidão, do contacto com animais (eu diria mesmo com o animal interior), e da eminência da morte perante a natureza opressora, tantas vezes subestimada pelo Homem.
O final quebrou qualquer coisa cá dentro, porque penso que entendi para além do que é visualizado. Penso que terei de ler o livro para tirar mais dúvidas, mas de qualquer modo dou os parabéns ao Ang Lee. O filme é arrebatador. Quase desejo viver uma aventura semelhante. Tendo visto o Argo (Globo de Ouro e Óscar de Melhor Filme), que também me deixou de coração nas mãos, digo que este A Vida de Pi contribuiu muito mais para mim como pessoa e amante de cinema. O Argo é contornável, esquecível. A Vida de Pi não.

PS - Vi-o de novo no dia seguinte, valeu a pena para compreendê-lo.

#4 Guia para um Final Feliz


Título oficial: The Silver Linnings Playbook @ 2012
Realizador: David O. Russell
Banda Sonora: Danny Elfman
Actores principais: Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Robert De Niro
Classificação IMDb: 8,0
Minha classificação: 8,0
Prémios: Melhor Actriz Princial (Jennifer Lawrence)


Sinopse: Após um internamento forçado numa instituição psiquiátrica, o professor Pat Solitano volta a morar com os seus pais enquanto tenta reconciliar-se com a sua ex-mulher. A sua busca pelo equilíbrio dificulta-se quando conhece Tiffany, uma misteriosa rapariga com a sua quota de problemas.


Opinião: Este filme mexeu comigo de um modo muito particular. As doenças mentais, compulsivas, que se revezam contra a vontade do seu portador, são um tema angustiante e tantas vezes têm dado origem a filmes comoventes (I Am Sam [2001], One Flew Over a Cuckoo’s Nest [1975]). Vi este filme sem grandes expectativas, espantada por aquelas duas caras bonitas (Cooper, Lawrence) terem protagonizado um filme que não foi encarado como uma comédia romântica comum, mas sim como um potencial vencedor de óscares. O enredo é rico em personagens e nas suas nuances comportamentais, deixando-nos no limbo quanto à concepção de “normalidade”. Pat (Cooper) sofre de bipolaridade. Devido a um choque emocional cometeu um acto de violência que lhe valeu uma estadia de vários meses num hospital psiquiátrico. Ao sair pretende recuperar a sua vida no ponto onde esta estava. No entanto é agora outra pessoa, apostada em melhorar em relação ao que fora antes, a fim de recuperar a mulher que o deixou. Tiffany (Lawrence) valeu o Óscar de melhor actriz a esta jovem de 22 anos. De facto, o seu papel é carismático e cativante, elevado a uma espécie de girl next door um bocadinho neurótica mas, em simultâneo, compreensível e empática. A personagem da Lawrence roubou realmente a cena a todos os outros os actores, mas também o Pat foi uma personagem profunda e versátil, sendo a sua evolução credível e, por vezes, inquietante. Robert De Niro ficou com o papel de pai de Pat, com obsessões compulsivas por sua vez (problemas de jogo, apostas, superstições).


Gostei muito de conhecer estas pessoas com os seus defeitos e vícios entranhados, numa luta constante entre o equilíbrio e a harmonia com a sociedade, e os seus resvalos interiores, difíceis de contornar. Por vezes as pessoas ditas “normais” que com eles se cruzavam eram tão ou mais infelizes do que o Pat e a Tiffany, o que me fez reflectir sobre o que significa, no fundo, ser-se normal.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

1809 - II


Carta do religioso Noel Antoine (1804) às autoridades, pedindo que se substituísse a perigosa Ponte das Barcas, que custara 1 milhão de cruzados de empréstimo à Inglaterra

“A entrada e saída da ponte são tão mesquinhamente estreitas que todos os dias existem dificuldades perigosas que se acentuam muitíssimo nos dias das feiras e quando há afluência de charretes de bois, cavalos, moços de fretes (…)”

1809 - I


Notas e documentos para o 1809:

Decreto do Conselho de Guerra de 11 de Dezembro de 1808

“Sendo a defeza da Patria o primeiro dever que a honra, a razão, e a mesma natureza impõe a todos os homens quando huma Nação barbara, desprezando os direitos mais sagrados que no mundo se conhecem, intenta reduzillos á escravidão, roubando as suas propriedades, destruindo a sua religião, violando os seus templos, e cometendo as maiores atrocidades (…) sem que tenham os seus habitantes outro algum meio de evitar os horrores a que se vem expostos (…) sou servido determinar, que toda a Nação Portuguesa se arme pelo modo que a cada hum for possível: que todos os homens, sem excepção de pessoa, ou classe, tenhão huma espingarda, ou pique com ponta de ferro de doze a treze palmos de comprido, e todas as mais armas que as suas possibilidades permitirem. Que todas as cidades, Villas e povoações consideráveis se fortifiquem tapando as entradas e ruas principais com dous, três e mais travezes, para que, reunindo-se aos seus habitantes todos os moradores dos Lugares, Aldêas, e Casaes vizinhos, se defendão alli vigorosamente quando o inimigo se apresente (...)”

E Soult acrescentaria mais tarde “Tive de me defrontar com uma nação inteira. Todos os habitantes, homens, mulheres, crianças, velhos e padres, estavam em armas, as aldeias abandonadas, os desfiladeiros emboscados. Fanáticos precipitavam-se contra as colunas francesas, onde encontravam a morte”

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

#75 HEMINGWAY, Ernest, Na Outra Margem, entre as Árvores


Sinopse: Na outra Margem, entre as Árvores é uma das melhores obras de ficção de Ernest Hemingway, onde o famoso escritor recria alguns episódios da segunda guerra mundial, magistralmente narrados por uma personagem muito ao gosto de Hemingway, o coronel Cantwell, velho combatente que passa as últimas vinte e quatro horas da vida na estranha e bela cidade de Veneza. Retrato de um mundo violento e conturbado, obtido através da imagem de um homem, Na outra Margem, entre as Árvores é uma obra-prima do genial autor de O Velho e o Mar, onde Hemingway mais uma vez manifesta as qualidades que o impuseram como um dos maiores escritores do nosso tempo.

Opinião: Há aquela lista de escritores incontornável para qualquer pessoa que goste de ler. E o Hemingway encontra-se entre eles. Só lendo ficamos a conhecer os motivos pelos quais algum autor é elogiado, mas de vez em quando também se dá o caso de não compreender de todo o frufru em torno de determinada obra literária/criador literário. Li-o como se jamais alguém tivesse dito que ele é um dos maiores escritores do nosso tempo, o que por vezes pode confundir-se com procurar-lhe defeitos. De início isso aconteceu bastante, mas depois deixei-me envolver-me na história e a minha apreciação tornou-se mais apurada, com filtro anti-influências.
Eu gosto de avaliar as coisas pela minha cabeça, não com base no que dizem do livro, não com base no estatuto do autor no mundo literário, mas com base em todo o resto que li. Posto isto, já li melhor do que este livro. Isto basta para dizer que conheço o autor? Não, mas alguns traços dele são tão marcados que certamente hão de estar impressos noutras obras.
Um dos pontos altos do livro são os diálogos. Apesar de fazerem pouco sentido – porque parecem seguir ao ritmo dos pensamentos e das associações de ideias – tiveram alguns trejeitos mais importantes para a compreensão das personagens e do seu mundo interior do que o descritivo do conteúdo das suas cabeças. A escrita também é fácil, leve e fluída, embora por vezes se perca em pormenores demasiado técnicos ou francamente desnecessários. O autor é muito visual, o que ora beneficia a obra, ora a torna mais enfadonha.
Neste livro específico, Hemingway explora a vida de um coronel que combateu na II Guerra Mundial, tendo parte da sua missão decorrido em Itália. Estamos portanto em Veneza, onde Ricardo (penso que seja Richard no original, não entendendo se assim for o motivo desta tradução) vive aquilo que nos informa (uma dezena de vezes) ser o seu “último e único e verdadeiro amor”. Achei o coronel demasiado self centered, impondo autoridade de vez em quando, dando ordens a propósito de tudo. Agradou-me o seu trato rude, a aspereza com que se exprime e o modo cínico como vê o mundo, o poder, a guerra e as suas esferas e “heróis”. Algumas reflexões são interessantes. Uma delas ficou-me na ideia: o único, último e verdadeiro amor do coronel sugere-lhe que escreva as suas memórias de guerra. O coronel diz ao seu único, último e verdadeiro amor, que esse género de romance de guerra sai melhor de mãos que não lutaram, nem viveram realmente a guerra. Tive de concordar. O Hemingway está claramente muito – demasiado – relacionado com o conflito para escrever algo que não seja realista, técnico, melindroso e, desde modo, por vezes fastidioso, em relação à dita cuja.
A partir de certo momento o romance tornou-se um longo monólogo do coronel quanto aos episódios da guerra. Primeiro a personagem feminina (Renata) parece só existir para lhe implorar por explicações da guerra. Penso que entendo a ideia do autor: digamos assim que ela o ama realmente, mesmo com a mão estropiada, e que se interessa por aquilo que nele é maior; a profissão, a guerra. Na minha opinião, esta mulher não existe. Em segundo lugar, quando ela dorme, quando ele pensa, quando ele olha para o retrato dela, para o espelho, para o barqueiro, para o Gran Maestro, para o Conde Alvarito e todas as outras personagens, é sempre a guerra, sempre a mesma sombra a imiscuir-se em cada fio da narrativa. Como dizia, um longo monólogo com personagens secundárias como receptáculo destas palavras a respeito de um mesmo assunto.
O coronel, contudo, é uma personagem bastante realista. Compreendo as nuances do seu pensamento, o quanto luta por ser cordial quando, na sua natureza e na sua experiência, apenas adquiriu hábitos de brusquidão e aspereza.
O ponto alto do livro foi, para mim, um ou dois parágrafos (máximo) em que o coronel finalmente conta dois pormenores, dois episódios, humanos sobre a guerra. Um episódio em que finalmente são se fala em nomes de generais e de tenentes, nem de aviões, nem de operações, nem de troços específicos de uma estrada qualquer, na operação tal, com um motor tipo x e uma pistola tipo y, nem na farda com a medalha z para o oficial tal.
Não vou desistir do autor, mas não me foi inesquecível.

Classificação: 3,5***/*

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

#74 CLAUDEL, Philippe, Almas Cinzentas

Classificação: 4,5****/*

Sinopse: Vencedor do Prémio Renaudot, Almas Cinzentas foi considerado o romance preferido dos livreiros, segundo um inquérito conduzido pela revista Livres-Hebdo, bem como – segundo a revista Lire - o mais importante romance publicado em França durante o ano de 2003.
Muitos anos depois, vai ser o polícia da aldeia, que desde o início duvidara da culpa atribuída ao rapaz, a relembrar o dia do crime e a cadeia de acontecimentos que o precederam e que se lhe seguiram. Uma história que termina com a tomada de consciência de que, na fronteira entre o bem e o mal, todos somos a um tempo culpados e inocentes, justos e injustos, almas cinzentas e atormentadas.

Um romance que, em jeito de thriller, toca o universal para revelar o ser humano em toda a sua fragilidade e grandiosidade.
Inverno de 1917. Numa pequena povoação da Lorena, a poucos quilómetros do campo de batalha onde decorre uma das maiores carnificinas da história da Europa, é descoberto o cadáver de uma menina de dez anos. O assassino é encontrado na figura de um jovem desertor que é imediatamente executado, ainda que uma testemunha diga que viu a criança encontrar-se com o insondável Procurador da terra na noite do crime.

Opinião: De vez em quando acontece-me desenvolver expectativas elevadas acerca de um romance. Em relação a este a capa seduziu-me. O título ainda mais. Sempre defendi que não há pessoas brancas nem pretas, que esbracejamos todos num mar de cinzento com altos e baixos. E o livro desenvolve essa ideia da melhor forma possível. Confesso que talvez ainda não o tenha entendido na sua imensidão complexa (compressa em 185 páginas), e que ainda nutro sentimentos ambíguos para com as personagens.
Dos poucos livros franceses que li, há um toque especial… uma atenção especial à comida, ao vinho, aos ventres, ao calor, aos ventos, aos bigodes e aos vermelhidões de rosto. Algo que se prende com as necessidades básicas humanas, longe da realização e que, de um modo ou de outro, constituem os pecados que a todos compõem.
Eu esperava algo em grande deste livro. Esperava ficar boquiaberta, despedaçada, surpreendida. A surpresa foi o modo desconcertante como o autor conduz a narrativa, entrecruza os factos. A vida é feita de coincidências, de ocasiões para nos revelarmos pior do que o esperado, e da união destas duas. O acaso, nesta obra premiada com o Renaudot de 2003 (no cinema como Les Âmes Grises), não passa disso. O acaso. A ocasião que faz o ladrão. O nada que influencia. Que induz em erro. Que cria a oportunidade para algo impulsivo, doentio, entranhado. Que gera suspeitas erróneas. Que fixa mentes na direcção errada durante uma vida inteira quando a verdade estava ali e era óbvia.
O livro é bom a tantos níveis… as personagens francesas são sempre almas próximas. Gostam de comer bem, beber melhor, agasalhar-se. São preguiçosas, por vezes de mente um pouco suja, língua um pouco solta, actos dificilmente justificados. São humanas, multidimensionais, cinzentas. Mil e uma sombras de cinzento.
A guerra é o pano de fundo nesta pequena aldeia sem nome, e a morte de uma criança, estrangulada e deixada na neve à beira de um canal, é a divisa para uma cisma de vida inteira de um polícia também ele sem nome. A guerra é um inimigo invisível, que vai chegando em colunas de soldados magoados, que trazem no corpo balas e memórias de braços outrora funcionais deixados para trás, na frente. Não se fala dos motivos da guerra. A guerra é a guerra e, como bem diz o Ashley Wilkes no E Tudo o Vento Levou, quando acaba já ninguém se lembra porque começou.
Há a Joséphine, que curte peles, caça animais e passeia os coelhos e as raposas para esfolar no seu carrinho de mão. Há o Destinat, no seu Palácio, sempre saudoso da sua esposa falecida. A Lyse, uma brisa de ar fresco, a ocupar o novo lugar de professora. A Clémence, esposa perfeita, dócil e compreensiva. Os odiosos juízes e inspector, com nomes estranhos começados com M. Ambos desprezíveis… Mas estarão certos? O odioso, o asqueroso, terá necessariamente de ser o errado? O radioso representará o bem e o certo?
O autor mexe com a nossa percepção. Ultraja-a. No fim, recusamo-nos a pôr de lado as nossas certezas, mesmo perante as evidências. Testa-nos nas ideias mais simples. Manipula as nossas emoções. Leva-nos a desejar bem ao mau, sem sabermos se é o mau, e a querer aliviar as dores da voz que nos narra a história, e que julgamos benigna, e que, no fim, também se revela cinzenta. Se não até negra.
Continuo a sentir que algo me escapou. Não, um romance não pode conseguir deixar-nos neste estado de atordoamento…
And yet

«- Confessas?
- Tudo o que quiser.
- E quanto à menina?
- Matei-a. Fui eu. Vi-a. Segui-a. Dei-lhe três facadas nas costas.
- Não, estrangulaste-a.
- Sim, é verdade, estrangulei-a, com estas mãos, o senhor tem razão eu nem tinha faca.
- Na margem do pequeno canal.
- Exactamente.
- E arrastaste-a para a água.
- Sim.
- Porque fizeste isso?
- Porque me apeteceu.
- Violá-la?
- Sim.
- Mas ela não foi violada.
- Não tive tempo. Ouvi barulho. Desatei a correr.»

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

#73 FIDALGO, Vanessa, Histórias de um Portugal Assombrado


Sinopse: Hoje o Palácio Beau Séjour é ocupado pelo Gabinete de Estudos Olisiponenses, da Câmara Municipal, de Lisboa, mas noutros tempos foi a residência do Barão da Glória, que ainda hoje por lá anda a arrastar grossos volumes de livros e caixotes de documentos, para desespero dos funcionários, que, dias depois, voltam a encontrá-los no exato local onde haviam procurado. O Barão também é culpado, acusam, pelo tilintar da chávenas em cima das mesas e pelo soar das campainhas da Quinta de São Domingos de Benfica. No Castelo de Almourol ou no de Bragança, amores incompreendidos deixaram espetros a pairar nas suas torres e ameias. Na Serra de Sintra sobram razões para ter medo, entre casas assombradas e almas que deambulam pelas estradas. No Porto, há espetros a discutir a herança pela calada da noite e apartamentos que, afinal, contra todas as razões lógicas, não estão vazios como aparentam. Em Castro Marim, as mouras ainda andam à solta, e, em Penafiel, os sustos marcam o ritmo dos dias na Quinta da Juncosa, que há séculos foi palco de um crime hediondo. Em Langarinhos, Gouveia, há uma casa inacabada, obra que, por mais que tente, nenhum proprietário consegue finalizar. 
Falar de fantasmas, casas assombradas e mistérios difíceis de explicar não é tarefa fácil. Há quem fique com pele de galinha, outros não deixam de esboçar um sorriso trocista.

Opinião: Não tinha qualquer expectativa quanto a este livro. Como me interesso por História, lendas e pelo património do meu país, julguei que talvez pudesse satisfazer um pouco dessas curiosidades nesta obra da Teresa Fidalgo. Até por volta da página 180 as compilações de situações foram isto tudo. A partir daí transformou-se num livrinho infantil sobre princesas mouras e alcaides/cavaleiros cristãos. Enfim...
Bom, o que me surpreendeu mais pela positiva foram as palavras escolhidas pela autora. Pensei, em dados trechos, que ela escreveria um bom romance. Não significa que tenha mergulhado muito a fundo nas personagens - ou sequer que não se tenha repetido "n" vezes, porque a dado momento as histórias eram todas iguais - mas tem um discurso fluído, que era onde receava ressentir-me mais na leitura.
Li histórias muito interessantes sobre casas, povoações, específicas. Pessoas com nome e história e moradas memoráveis. Edifícios conhecidos de qualquer lisboeta ou mesmo estruturas em Carcavelos e no Estoril, onde estudei três anos, aproximaram-me deste imaginário tenebroso. Infelizmente, intercaladas com estas histórias e depoimentos surgiam lendas sem grande fundamento, sem fontes que não o linguajar popular.
Entreteve-me (assustou-me e valeu-me um sonho daqueles de pôr os cabelinhos em pé), mas penso que a autora devia ter cortado tudo a partir da página 180/90 e poupar-nos às agruras dos amores medievais, bem como deveria ter-se encurtado na descrição das histórias centenárias de alguns edifícios. Não conseguiu, deste modo,  manter-me o interesse aceso. Ainda assim li-o em dois dias.
Aconselho, até porque aprendi um pouco da realidade dos sanatórios - doentes pulmonares - e de crenças populares como a suspeita de que, se uma mulher engravidasse de gémeos, cada filho seria de um pai diferente, votando-a à ostracização dos adúlteros.
Ia dar-lhe um 4*, mas as últimas 60/70 páginas sobre princesas, suicídios de amor, os amados sob a forma de neblina matinal e maldições assolapadas desmotivou-me.
Classificação: 3***/*

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

#3 Para Roma com Amor



Título oficial: To Rome With Love @ 2012
Realizador: Woody Allen
Actores principais: Alec Baldwin, Woody Allen, Penelope Cruz, Ellen Page, Roberto Benigni, Jesse Eisenberg
Classificação IMDb: 6,4
Minha classificação: 6

Sinopse: As vidas de alguns turistas e residentes em Roma e os seus romances, aventuras e peripécias.





Opinião: Nunca fui grande fã de Woody Allen. O meu filme favorito dele nunca foi ultrapassado: Match Point. A aura do Jonathan Rhys-Meyers conquistou-me esse apreço. Também gostei do Cassandra’s Dream, mas uma vez mais pode dever-se ao Colin Farrell. Onde andou a Scarlett Johansson nesta produção? Não que eu sinta falta dela neste filme (ou em algum filme) mas estranhei, havia ali um ou outro papel que podiam ter-lhe pertencido.
O Roberto Benigni (A Vida é Bela) está óptimo como sempre, bem como todos os autores romanos, que conferiram alguma autenticidade ao filme. Foi para mim um regalo observá-los, ouvi-los, ver como se vestem, o que comem, como se exprimem e barafustam.
Estarei em Roma em Junho e foi por Roma que procurei no filme. Vi-a e ela brilhou muito mais do que qualquer foco da história, isto porque, por ex., no Vicky Christina Barcelona nem tão pouco me recordo de Barcelona. A cidade não foi uma personagem. Paris foi uma personagem no Midnight in Paris. Neste último filme – talvez porque a minha atenção se centrou aí – mas a cidade foi a grande protagonista. Roma e os romanos. Todos os outros são dispensáveis.
Há uma espécie de grilo falante – o Alec Baldwin – aos ouvidos do Jesse Eisenberg (A Rede Social). A Ellen Page (Juno) surge num papel detestável. Não que não conheça sex animals que se excitem principalmente com enrolarem-se com os namorados das amigas, mas acho que já a vi demasiadas vezes com o mesmo tipo de actuação. Tive pena que ela estivesse tão monótona quando tem tanto potencial.
A Penelope Cruz enche a tela quando sorri, mas já a vi igual noutros tantos filmes com esta mesma caracterização (para não dizer papel). No Nine, por exemplo. É um figurão, contudo.
O Woody Allen fez de velho preconceituoso e inconveniente, embora com algumas certeiras que me fizeram sorrir. Para mim a cena mais marcante será aquela em que Fabio Armiliato canta ópera perante uns quantos senhores da indústria musical. Não fosse a minha adorada Nessun Dorma (G. Puccini, Turandot) ainda faz uma cara inesquecível…
Foi um filme leve – demasiado leve para Woody Allen, superficial, pointless.
Em suma, nada do filme perdurará por muito tempo na minha memória tão sobrecarregada excepto, talvez… Roma

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

#72 KEATING, Barbara & Stephanie, Luz Efémera


Sinopse: Em crianças, Hannah, Sarah e Camilla tornaram-se irmãs de sangue. Com o passar dos anos, conseguirá esta aliança manter-se inquebrável? 
 Hannah e o marido são donos da fazenda Langani e do Safari Lodge. Juntos, lutam para preservar a vida selvagem e as suas terras, ameaçadas por caçadores furtivos e funcionários governamentais corruptos. Contudo, vai ser a relação entre a filha de ambos e um rapaz africano a constituir o verdadeiro teste à união familiar. Por seu lado, Sarah é uma reputada fotógrafa e investigadora da vida animal. A morte do seu amor de infância marcou com violência a sua entrada na idade adulta; tantos anos depois, procura ainda recuperar a inocência perdida. Camilla conseguiu vingar no exigente mundo da moda e parece estar prestes a viver plenamente o seu grande amor ao lado do carismático guia de safáris Anthony Chapman. Mas uma triste reviravolta ensombra a vida de ambos e ameaça agora estilhaçar os sonhos que em tempos partilharam.
 Passado nas regiões selvagens e imprevisíveis do Quénia, Luz Efémera é uma história de coragem, amizade, traição e sacrifício redentor.
  
Opinião: Comprei o Irmãs de Sangue em 2009, na Feira do Livro. Li as primeiras 600 páginas deste primeiro volume num sopro, desconcertada com tanta beleza. O Quénia - Nairobi, os safaris, a fazenda Langani - são cenários de cortar a respiração e, mesmo "lido", causa impacto se soltarmos a imaginação e estivermos receptivos. Nesse ponto algo horrível aconteceu e magoou-me tanto que fechei o livro, emocionalmente exausta. Dois anos depois peguei-lhe e sorvi as últimas 60 páginas. Chorei e sorri. Sim, o livro ainda tinha esse poder sobre mim. Li o segundo o ano passado, tendo investido nos outros dois volumes ao descobrir que se tratava de uma trilogia. Fui ao ponto de vender o meu 1º volume e re-comprá-lo novo para que a capa fizesse "pandan" com os irmãos na prateleira. Sim, isto expressa o quanto esta trilogia mexeu comigo. Os cenários em África, a História de África, um pouco também de todo o Império Britânico na segunda metade do século XX (em que sucumbiu) encantou-me desde o primeiro parágrafo.

Este discurso continuaria assim se, a cada novo parágrafo que lia deste último livro o meu encanto não fosse esmorecendo. Pôs-me, inclusive, a pensar no rumo e no ritmo dos volumes anteriores. Apesar de todas as "falhas" que lhe apontarei abaixo, porque no final elas sobrepuseram-se ao enredo que tanto me havia apaixonado, são livros para ser lidos e vividos. Esqueçam tudo e foquem-se na beleza de África, e eles valerão a pena.

Neste terceiro volume resolveram-se crises e problemas que se arrastaram desde o segundo. Infelizmente, as personagens principais decepcionaram-me todas, sem excepção. As três irmãs de sangue estão a crescer e a emburrecer. Mais intolerantes, mais histéricas, mais dramáticas, menos práticas, mais emotivas, mais briguentas, mimadas e por vezes até ridículas. Os alvos principais dos seus rancores e mal humores são, como não poderia deixar de ser, primeiro os maridos e depois, quando a comunicação com eles já está quebrada - porque de súbito tanto a Sarah como a Hannah parecem ter a idade mental de 12 anos - viram-se para os filhos (caso da Hannah) e outras amigas (caso da Sarah, que se mete numa briga enorme com a Camilla). Foi para mim incomodativo observar pessoas que haviam passado por tanto e que supostamente tinham crescido a comportarem-se como a minha irmã adolescente (felizmente as crises já lhe passaram) e a dizer atrocidades que magoavam os maridos que, quanto mais as aturavam, mais eu gostava deles. O Lars e o Rabrindrah merecem um altar.
A Suniva foi a minha personagem favorita neste livro, juntamente com o James. Ambos personificam um amor sólido e inabalável e ambos lutam e abdicam do que for preciso em nome dessa ligação. São o espelho inverso da relação dos pais da Suniva, que parece degradada ao ponto de um deles quase se suicidar. O James também foi muito benéfico para o enredo deste último livro, pena que ambos não tivessem tido mais protagonismo.
A Camilla cresce finalmente. Por muito que tenha sido sempre a "irmã" que me aborrecia mais, neste livro é um sopro de equilíbrio e ar fresco. É abnegada e confiante (sem grandes crises existenciais, como as outras), prática e assertiva. Finalmente concretiza o seu grande amor com o Anthony (como a própria sinopse revela) e dedica-se-lhe a cem por cento. Fora um acto que lhe condeno, mas que ela própria também se condena, só precisava de mais sal para ter roubado a cena por completo.
A Hannah irritou-me sobremaneira no livro anterior. Quis esbofeteá-la umas quantas vezes. Neste livro detestei-a ainda mais, tornou-se, a meus olhos, uma vilã. Tiraniza o marido, negligencia a Suniva em prol do Piet, é amarga para com o James e hostiliza os sogros que são pessoas amorosas. Sem mencionar que é a sombra principal sobre o amor da Suniva e do James, só por aí bastaria.
A Sarah enojou-me. Sempre foi, para mim, a personagem mais fiel a si mesma e mais sentimental. Mas neste livro tem uma fraqueza que, noutra personagem, associaria à natureza humana. Nela soa-me a inconsistência do autor. Pareceu-me a Hannah em demasiados pontos, e acreditem que a Hannah é detestável. É inflexível para com um marido admirável, está obcecada com ter um filho e neurótica. Mas há algo que ela faz que me fez perder toda a fé nela, bem como parar de lhe desejar um final feliz.
O livro tem c. 750 páginas. Na página 690 as cenas começam a atropelar-se. Cinco anos passam, depois dez. Pessoas morrem, aparecem com filhos, mudam de país, entregam casas, fogem de casa, pedem outras em casamento. Num livro tão grande onde se enrolou tanto - houve momentos em que a observações das chitas me fazia pensar num domingo de manhã a ver os documentários da BBC - e onde se deu tanta importância a insignificâncias, não podiam ter caprichado um bocadinho mais nestes desenvolvimentos finais?
A trilogia não foi encerrada com chave de ouro. As personagens estavam, por vezes, irreconhecíveis. Há diálogos - personagens, até - situações e crises pointless, que vêm do nada e desaparecem no nada, sem nada acrescentarem ao romance. Confesso que pulei muitos parágrafos na leitura, já estava francamente exausta.

Vale a pena lerem porque o enredo, o fio condutor da história, é flawless. É a consistência das personagens, o ritmo e o conteúdo, o modo como a história nos vai sendo estendida, ora numa lentidão agonizante ora tão rápida que ficamos "what the hell?", que não funcionou.
Classificação: 3***/*

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

#2 Django Libertado


Título oficial: Django Unchained @ 2012
Realizador: Quentin Tarantino
Banda sonora: Ennio Morricone
Actores principais: Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio, Kerry Washington
Classificação IMDb: 8,6
Minha classificação: 9,5


*O melhor filme que vi nos últimos tempos*

Nunca fui grande fã de Tarantino... isto é, nunca senti apelo algum aos filmes dele. Resumia-os a isto: sangue, violência gratuita, bad guys looking cool. O primeiro filme dele que vi foi o Inglourious Basterds, e o segundo é agora o Django. Gostei do Inglourious Basterds e pu-lo na linha do Snatch - Porcos e Diamantes (@2000 Guy Ritchie), onde é tudo maluco, tudo aos tiros, mas com humor e alguma mestria.
Não fiquei com grande vontade de voltar a ver o Inglourious Basterds, mas fiquei com vontade de voltar a ver o trabalho do Tarantino. Assim sendo sentei-me no cinema nesta quarta-feira passada com expectativas elevadas quanto ao filme. Já esperava o sangue e algum humor e, ainda assim, excedeu todas as minhas expectativas. A direcção - planos, cortes, ângulos, abordagens - é perfeita. A ironia é perfeita. Ri-me várias vezes, tive o coração nas mãos outras tantas.
A história é original e interessante, abordando a escravatura sem apelar a lágrimas humanitárias, mas recordando-nos da sua selvageria. Pretos a discriminarem pretos, pretos a mandarem “discretamente” nos seus amos brancos, pretos a matarem brancos e a receber por isso. Tarantino foi audaz, poderia ter causado uma onda de controvérsias - e o filme é controverso. Mas considerei-o sublime.
A banda sonora dirigida por Ennio Morricone (Cinema Paraíso, A Missão) e com participações de Rick Ross de Anthony Hamilton e Elayna Boynton dirige as emoções e ajuda a descodificar os momentos em tela. Algumas citações são inesquecívels:
“Gentleman, you had my curiosity but now you have my attention!” Ficará para a posterioridade.
Ri-me, chorei, caiu-me o queixo, estremeci, tive o coração nas mãos e exultei com a "awesomeness” do filme. Com o devido sobreaviso quanto à violência e aos momentos em que o Tarantino deixa o espectador frustrado e desconcertado, aconselho todos a verem esta película que, no fim, se revela bastante gratificante.
Deixo-vos com esta magnífica “Freedom”, que personifica tão bem toda a acção e a essência do filme.

Curiosidade: O Leonardo DiCaprio cortou realmente a mão numa das cenas, continuando a representar sem exigir um corte na cena. O sangue foi-lhe escorrendo pela mão e criou um efeito perturbador que cai maravilhosamente à personagem. A dado momento esfrega a mão na cara de Kerry Washington, espalhando o sangue no seu rosto para dar ênfase às suas ameaças. Pareceu-me um momento de excelência na representação, em que ambos deram o melhor de si de improviso e conquistaram mais uns pontinhos para a obra-prima que é o filme.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

#1 LINCOLN


Título oficial: Lincoln @ 2012
Realizador: Steven Spielberg
Banda sonora: John Williams
Actores principais: Daniel Day-Lewis, Sally Field, Joseph Gordon-Levitt, Tommy Lee Jones
Classificação IMDb: 7,9
Minha classificação: 6

Sinopse: Conforme a Guerra de Secessão decorre, o Presidente da América luta continuamente, inclusive contra os homens da sua própria facção, a respeito da 13ª Emenda que conferiria a liberdade aos escravos.


Opinião: Meus queridos eu sou absolutamente doida pela Guerra da Secessão. Na minha opinião é o período mais importante da História Americana e carrega muitas repercussões consigo. Para quem não sabe, trata-se de um conflito de cariz civil decorrido entre 1861 e 1865 entre os Estados da América mais a Norte, a "União", e os Estados Confederados a Sul, a "Confederação". A guerra despoletou porque o Sul, ruralizado, cujo sistema económico assentava totalmente na produção de algodão suportada pelo trabalho escravo, pretendia desligar-se do Norte industrializado, baseado no proteccionismo económico e anti esclavagista (este ponto é controverso). Criando uma Confederação independente dos Estados a Norte, causou uma fricção que, já com Abraham Lincoln no poder, se estendeu em combates sangrentos durante quatro longos anos.
O meu filme favorito de sempre é o E Tudo o Vento Levou. Para quem pensa que é a história de amor de uma rapariga bonita e de mau feitio e um cretino arrogante, fique a saber que é a História do Sul, onde os valores aristocratas e o liberalismo económico imperava. A arrogância do Sul elevada a um poema, apesar de todos os erros humanitários... A Margaret Mitchell, com o seu maravilhoso romance, criticou e exaltou uma "nação" à parte da restante América. Os negros são bem tratados, mas não são livres. A economia do Sul, embora liberalista, irá colapsar porque está dependente do preço do algodão. O que se vê no maravilhoso filme do David O. Selznick e do Victor Fleming de  1939 é a queda de um modo de vida, impulsionada pela guerra. O Norte pretende absorvê-los, por muito que não os compreenda nem os valorize, e o Sul, orgulhoso, rebela-se. Durante a guerra ambas as facções sobrem atrozmente as baixas e os horrores do conflito. Muito sangue é derramado e, na perspectiva do Sul, a estratégia do Norte para angariar mais braços para a sua causa e sufocar de vez a sua economia é libertar os escravos. Deste modo perderiam os braços dos negros que combatiam (obrigados) pelo Sul e, quando a guerra terminasse, não teriam mão de obra para levar a produção algodoeira  a bom porto. De facto, há uma reflexão sobre o facto de os negros não estarem, sequer, preparados para a alforria. Não têm outra estrutura social que não pertencer a uma casa, trabalhar a sua terra, dormir nas camas providenciadas pelos amos e cuidar dos seus filhos. Livres tornam-se velhacos, vingativos (como é compreensível), causam mortes, abusam de mulheres, estabelecem-se em acampamentos e embebedam-se nos botequins. Eu faria o mesmo depois de três séculos de escravatura, mas torna-se também compreensível a perspectiva do Sul, que não conhece outro modo de sustentabilidade.

Vendo o filme do Spielberg, aliás nomeado para os Óscares, adormeci na primeira parte. I did, pela primeira vez no cinema. O filme começa com diálogos (francamente forçados) que expõem - tell - as estratégias da União e os receios dos civis, das esposas, dos filhos. Lincoln surge com um sorriso benevolente e postura exausta. Penso que o Daniel Day-Lewis conseguiu recriar a aura em torno deste Presidente, até porque é bem mais jovem do que Lincoln era mas, por vezes, a caracterização pareceu-me um pouco caricata. A moda não era muito amiga da estética à época e surgem um pouco exageradas aquelas patilhas, difícil é fazer a personagem parecer credível. Creio que a representação do Day-Lewis é irrepreensível, mas o envolvimento tornou o filme, para mim, um bocado teatral. Bom bocado dessa primeira parte (antes de adormecer) foram sequências de homens a disparar leis e a discutir o papel estratégico da 13ª Emenda (a que libertaria os escravos) para o fim da guerra, que é tudo o que se ambiciona.
Pareceu-me, a dado momento, que a 13ª Emenda era algo de abstracto, uma ferramenta mais política do que humanitária. Aliás, isto resume o livro. É bem mais político do que humanitário, e era o lado humanitário que eu procurava no filme - se tivesse alguma expectativa no filme, que aliás não tinha.
Todo o filme é muito sóbrio, muito formal, tirando uma piadinha ou outra, bem como a personagem do Tommy Lee Jones, que quando actua rouba a cena, teria dormido ao longo de toda a segunda parte também.
Os cortes de cenas causam quase anticlímaxes, eu procurava, sendo o Spielberg, alguma arte intrínseca, mas pareceu tudo muito técnico, muito sóbrio, muito frio.


A banda sonora, que poderia ter ajudado a salvar o filme - John Williams! Por amor de Deus (Memoirs of a Geisha) - é monótona, ajudou a embalar-me. Não há um clímax, uma composição que fique na memória... e logo eu, sempre tão atenta à soundtrack.

Enfim... 6*/10* e porque é a Guerra de Secessão.

Quase oiço a Scarlett O'Hara a dizer "Tonight I wouldn't mind dancing with Abe Lincoln himself!".