terça-feira, 8 de outubro de 2013

#103 OLIVEIRA, Carlos de, Uma Abelha na Chuva

Sinopse: Uma Abelha na Chuva conta-nos as peripécias de Álvaro Rodrigues Silvestre, sujeito às “instigações” de sua esposa, D. Maria dos Prazeres Pessoa de Alva Sancho Silvestre. O livro começa com uma confissão de Álvaro e com a sua vontade de a tornar pública na primeira página da Comarca — uma redenção consigo próprio. 
Esta história leva-nos à aldeia de Montouro num Outono chuvoso, onde conhecemos as personagens que rodeiam este casal e constituem a aldeia e pelos quais ficamos a conhecer o Portugal provinciano de meados do século XX.Como afirma o autor, “Por onde a solidão a fazia resvalar. E o quarto tão frio. Talvez os ventos, os granizos do norte, as grandes chuvas. Talvez D. Violante. Mas sobretudo a velha casa de Alva, quando a miséria não chegara ainda e, atrás dela, os Silvestres. Agora é o marido labrego e doentio, as bebedeiras, o desencanto, isto. Quer melhores nortadas, D. Violante?”.O escritor ironiza a sabedoria popular, o largo da aldeia quando acolhe um ajuntamento popular, ancestral, onde tudo se discute, onde tudo se decide num julgamento popular e, tantas vezes, tacanho. E a morte, que persegue Álvaro numa bebedeira de brandy, a morte que tolhe Jacinto e Clara, à chuva, persiste em vingar neste livro.

Opinião: Entre 2006 e 2008 escrevi aquele que pode ser considerado o meu primeiro romance. Curiosamente, chamei-lhe “Abelhas e Borboletas”, mas eu desconhecia por completo esta obra ou o próprio autor. Longe de mim querer comparar-me ao Carlos de Oliveira na mestria do “Uma Abelha na Chuva”. Ainda assim, contudo, denoto-lhe um certo paralelismo. O retrato físico de uma mulher bonita, robusta, casada por dever com um homem que a ama, e que ela despreza. Um homem fraco, bondoso, bonacheirão. É um retrato poderoso, uma submersão, num pequeno mundo rural e também no pensamento de alguns estratos sociais aqui bem representados. É palpável uma certa hipocrisia no cura, uma ambição injustificada no proletariado, uma asfixia da nobreza e a decadência moral de uma burguesia de vícios e fraquezas.
Este livro veio ter comigo através do programa “Grandes Livros” da RTP 2, e a prestação da Laura Soveral como D. Maria dos Prazeres captou-me a atenção. Uma mulher de aspecto tão firme, e ainda assim interiormente quebrada. O cabelo perfeitamente arranjado, e ainda assim um torvelinho na alma, evidente sob a superfície serena. Reconheci o tipo de força sustido por aquele rosto quase passivo que, de olhar baço, se insinuava ecrã a preto e branco. As páginas deste romance, como um mergulho no quotidiano destas pessoas e das suas relações, expõem o casamento disfuncional de Álvaro Silvestre, pequeno proprietário rural, dono de uma mercearia, quem sabe outrora lavrador, e de D. Maria dos Prazeres, oriunda de uma família nobre em declínio. Apegada aos objectos que um dia coloriram o estatuto da família, esta personagem é, sem dúvida, a minha favorita. Mas nem por isso está melhor composta do que as restantes. Todos são dotados de uma admirável multidimensionalidade.
D. Maria dos Prazeres é apegada à tradição, ao passado, e é também uma vítima de ambos. Foi conduzida ao altar por um pai à beira da falência, e viu-se condenada a uma vida de infelicidade ao lado de um homem frouxo. É ela quem usa as calças lá em casa, é ela que se vale do padre para o espiar, é ela que lhe diz que, se a vida lhes estende limões, devem fazer limonada. Mas nem tudo está dentro dos limites rígidos do seu controlo; não manda no próprio coração nem numa coisa que tem vida própria e que pulsa a cada vez que põe os olhos no cocheiro da casa; o desejo. Deseja o cocheiro rude, risonho, despreocupado, um pouco tosco que a segue para onde ela o mandar. Talvez porque ele seja uma antítese gritante do seu marido patético. Mas esse cocheiro é um devaneio fora do seu alcance, e ela não dá um passo para inverter essa situação. Enquanto isso o marido bebe e o cocheiro quase toca a felicidade ao lado de Clara, a filha do velho e cego oleiro de Montouro.
Tudo se desmorona quando o marido fraco, Álvaro, ouve o cocheiro mencionar os indesejados olhares cobiçosos que a patroa lhe deita. O castelo de cartas que derruba pouca influência terá na sua vida, mas é o suficiente para um homem inactivo se sentir vingado, e no entanto destrói as vidas de dois inocentes.
Este livro existe como algumas horas, um espaço fechado, onde o mundo rural vem descrito de forma sublime – cheira-se, toca-se, sente-se, ouve-se. Uma obra, a meu ver, incontornável para quem procura compreender melhor o panorama literário português. A passinhos de bebé, cá me vou aventurando.

Classificação: 4****/*

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