quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

#69 BRONTË, Charlotte, Jane Eyre



Sinopse: Charlotte Brontë conseguiu em Jane Eyre uma fusão perfeita entre o realismo e o romance, incorporando dois temas que persistem no inconsistente colectivo porque expressam aspirações humanas permanentes: o mito de Cinderela, a rapariga pobre e oprimida que casa com o príncipe poderoso, e o mito do sucesso: a recém-chegada sofre, persevera e triunfa da adversidade. 
No entanto, Jane Eyre não é um mero romance de evasão, tem uma verdade e um realismo totais; nos momentos mais empolgantes da acção, os detalhes, como na vida real, são solidamente prosaicos e mesmo o triunfo final de Jane é um triunfo incompleto, à escala humana.
O que caracteriza a arte desta grande romancista inglesa, e ainda hoje a impõe à nossa admiração é, essencialmente, ter sabido descer ao mais profundo dos seres, mostrando-nos, na sua verdade integral, o mau e o bom, o forte e o fraco, na complexidade das suas motivações e das paixões que os dominam, a verdade e a profunda riqueza das figuras que construiu, assim como a violência que as agita, e a humanidade de que vibram e que, página após página, não cessa de nos manter suspensos e ansiosos.

Opinião: Tendo lido anteriormente O Monte dos Vendavais da irmã da autora, Emily Brontë, e conhecendo o enredo desta obra graças ao filme protagonizado por Mia Wasikowska (2011), julguei que a Charlotte seria preterida à irmã. Confesso que o enredo não me interessava tanto, porque sou um bocado adversa ao que pende para o sobrenatural. Mas em boa verdade o livro - ao contrário do filme, que me emocionou mas que não ficou exactamente guardado no meu consciente - conquistou-me e superou, como aliás já é hábito, o filme homónimo.
Estas duas irmãs são tão boas que, apesar da mesma época e do provável mesmo contexto em que foram criadas e educadas, a Emily é uma criadora e a Charlotte é, inegavelmente, outra. A sensibilidade de ambas é impossível de misturar ou dissimular. Enquanto a Emily é crua e mexe com ventos exteriores e perturbadores, a Charlotte mergulha fundo nos motivos ocultos de cada um, sendo que ambas fornecem quadros precisos da natureza humana em estádios diferentes.
Em Jane Eyre acompanhamos alguns dos demónios de carácter que parecem presentes n’O Monte dos Vendavais que a sua irmã publicou alguns anos depois. A natureza a exaltar-se contra o Homem. O carácter ambíguo das pessoas de que nos rodeamos. Mas a escrita de Charlotte é menos intrincada, sendo o Jane Eyre mais fácil de apreender, mais suave (menos áspero) do que a obra-prima da Emily. Também fala em loucura mas, enquanto a que a irmã descreve fervilha, estridente, e povoa cada gesto das personagens, a loucura em Jane Eyre é clínica e fonte involuntária de dissabores.

Deixem-me explicar o enredo deste clássico da literatura inglesa... Jane Eyre é uma órfã acolhida por um tio bondoso, que se torna um fardo para a tia e os primos quando o dito tio falece. Deste modo transforma-se numa criança difícil, vítima inconformada dos maltratos psicológicos e físicos a que é submetida. Eventualmente, acaba por ser afastada da família e encerrada em Lowood, uma escola rígida para meninas. Sendo as condições miseráveis - fome, frio, trabalhos e insensibilidades - também aqui Jane não é feliz.

O calor humano chega-lhe quando, tendo ensinado em Lowood ao formar-se, se torna Perceptora da pequena Adèle em Thornfield e conhece o dono do seu novo lar - Mr. Edward Rochester.

Aqui entra o evidente talento de Charlotte para as relações humanas. Mr. Rochester é multidimensional, mantendo apenas a constância quanto à aura de mistério que o envolve e a um peso incómodo que recai sobre cada um dos seus gestos ou palavras. Não tivesse assistido ao filme e - ignorante da realidade das suas circunstâncias - consideraria que apenas hesita porque faz pouco daquela que se torna, ao longo da leitura, a nossa querida Jane. Também neste ponto a Charlotte difere da irmã no seu Monte dos Vendavais, porque todas as personagens deste são absolutamente desprezíveis. Fascinantes precisamente pelo quão desprezíveis são e pelo quanto, mesmo assim, nos interessamos pelo seu futuro.

Ao contrário do rol de personagens d’O Monte dos Vendavais - amorais, egoístas, cruéis, vingativos, imparáveis - a Jane é determinada, decente, bondosa, caridosa, preocupada com o certo e o errado. É incapaz de infringir mal ou de quebrar as regras da moral e dos bons costumes, inclusive quando sai prejudicada dessa escolha. Este altruismo e abnegação torna esta obra tão rica e única, mesmo quando comparada com o conteúdo de outro clássico da mesma época, elaborado por um punho com quem a sua criadora partilha o ADN, as circunstâncias e a educação.

Apesar de ser irremediavelmente apaixonada pelo Monte dos Vendavais, aconselho igualmente a obra da sua irmã a todos, visto ser fonte de raciocínios pertinentes que tornam a condição humana em algo intemporal. Li algures que é uma primeira obra a emergir sob o signo da emancipação feminina e de facto é-o, na medida em que a Jane está à frente do seu tempo, tanto quanto Charlotte Brontë estava ao acenar-nos lá de trás, da bruma do início do séc. XIX, com valores tão actuais.
 Classificação: 5***** 

domingo, 23 de dezembro de 2012

»Jane Eyre (Charlotte Brontë)

«A consciência da minha vida estragada, do meu amor perdido, das minhas esperanças mortas, da minha fé aniquilada erguia-se diante de mim como uma montanha imensa, prestes a esmagar-me. Não encontro palavras para descrever aquelas horas de amargura. Como dizem as Escrituras: "As águas invadiram a minha alma, mergulhei no pélago profundo e as ondas tragaram-me".»


quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

»Uma Promessa de...

Ora o mês passado consegui fintar por completo o plano de leitura que eu mesma estabeleci. Posto isto verei como me comportarei em 2013... valerá a pena criar-me novos desafios apenas para me desafiar a contorná-los?

Há alguns livros que me fitam da estante e que me causam arrepios de prazer de espectativa...

São estes:

1. Luz Efémera (Volume III da Trilogia Langani)

~Trata-se daquilo que imagino ser a chave de ouro de uma trilogia deliciosa que começou nos anos 60 num Quénia dominado pelos Britânicos, a clamar por liberdade. Desenvolve os conceitos de «africânder», introduz-nos a algumas das tribos locais e, sobretudo, às vidas atribuladas de três amigas: Sarah (a minha favorita), Hannah (que me exaspera e irrita) e Camilla (tantas vezes só me apetece esbofeteá-la. A Sarah é descendente de irlandeses e é loucamente apaixonada pelo Piet, irmão da Hannah, no primeiro volume. No segundo volume, tendo superado (ou tentando superar) uma horrível prova de fogo que até a mim me arrepia e agonia, é uma fotógrafa profissional que vive numa reserva natural e acompanha manadas de elefantes. O Piet é apaixonado pela Camilla. A Camilla é apaixonada pelo guia de safaris Anthony - o gostosão mulherengo lá da área - e vive entre as passerelles de Londres e o cenário de sonho da sua infância. Hannah está determinada em manter o legado da sua família de africânderes e de desenvolver a reserva natural que o seu irmão tanto sonhara construir. Mas a ameaça dos nativos que os consideram intrusos ronda-lhes o espaço, compromete-lhes a vida e traz memórias de violências passadas, quando enormes atrocidades se cometeram do lado de ambas as nações num estado de sítio que guarda consequências para os seus descendentes.

2. O Aroma das Especiarias (Volume III da Trilogia do Chocolate)

~O Chocolate entranhou-se no meu imaginário desde que eu tinha doze ou treze anos. Um livro envolvente, emotivo, supersticioso, com um toque místico, personagens fortes e inesquecíveis - até hoje recordo a postura da Armande a beber chocolate quente na La Céleste Praline. Há um filme protagonizado pela Juliette Binoche e o Johnny Depp que deturpa um pouco o romance original, mas ainda assim penetra-me nos ossos. Há até musicais em torno dessa primeira magnifica obra que conta a história de uma mulher do mundo, mãe solteira de capa e sapatos vermelhos (Vianne) que corre o mundo ao sabor dos ventos do Norte. Ao chegar a Lansquenet-sur-Tânnes, decide abrir uma chocolataria no período da Quaresma, em que se fala de jejum e abnegação. Esta religiosidade cínica - retraída, reprimida - é marca presente nas obras da autora, como em Na Corda Bamba (no seu original Holy Fools). No Sapatos de Rebuçado Vianne e a sua pequena filha, Anouk, vivem novas aventuras, numa obra carregada da mesma fragrância doce e mística. E por último segue-se este regresso a Lansquenet... e eu ansiosa por voltar com ela.

3. Anna Karenina (Leo Tolstoi)

~Por favor, não pensem que descobri esta obra do Tolstoi aquando do remake do filme pelo meu adorado realizador Joe Wright (Orgulho e Preconceito, Expiação). Nem me recordo ao certo como ouvi falar desta obra, certo é que o adultério, a separação, o ostracismo e o século XIX em geral me interessam desde sempre. Após muito namorar esta obra, lá a adquiri (PVP 35,33€, conseguida com 50% de desconto numa daquelas campanhas mirabolantes da minha adorada/odiada Fnac). Agora está cá em casa, à espera que eu ganhe coragem para pegar nesta obra colossal que promete muitas emoções e que se adivinha sublime.

4. Servidão Humana (W. Somerset Maugham)

~Tendo corrido muito para o encontrar - escrevendo inclusive e-mails à Asa e perguntando pelo paradeiro dum último livro que pudesse ter sobrevivido ao stock - fui informada de que a edição estava esgotada e de que não sabiam quando a reporiam. Conclusão: na feira do livro de Almada, na Bertrand do Rio Sul e aos magotes na Fnac de Almada, lá anda esta obra do Maugham. O que espero dela? Existencialismo, dureza, lições de vida, reflexões profundas, algo a somar a quem sou, ao que conheço do mundo, das pessoas e da literatura em geral.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

#68 TOLKIEN, J. R. R., O Hobbit


Sinopse: Esta é a história da aventura de um Baggins, que deu consigo a fazer e a dizer coisas completamente impensáveis…Bilbo Baggins é um hobbit que desfruta de uma vida confortável e sem qualquer ambição. Ele raramente se aventura em viagens, não indo mais longe do que até à dispensa de sua casa, no Fundo do Saco. Mas este conforto será perturbado por Gandalf, o feiticeiro, e por um grupo de treze anões, que num belo dia chegam para o levar numa viagem «de ida e volta». Eles têm um plano para pilhar o espantoso tesouro de Smaug, o Magnífico, um dragão enorme e extremamente perigoso. Encontros inesperados com elfos, gnomos e aranhas gigantes, um dragão que fala, e ainda a presença involuntária na Batalha dos Cinco Exércitos, são apenas algumas das experiências por que Bilbo passará.

"O Hobbit" é o prelúdio de "O Senhor dos Anéis" e já vendeu milhões de cópias desde a sua publicação, em 1937. É claramente um dos livros mais amados e influentes do século XX.
«Uma obra-prima incomparável.»

The Times



Opinião: Sabendo o que se segue (tendo lido o primeiro volume da Trilogia o Senhor dos Anéis e sendo eu e a minha irmãzinha de 6 anos fãs incondicionais dos filmes do Jackson), pensei que veria “O Hobbit” em retrospectiva. Isto é, com a percepção de uma história contada ao calor da lareira sobre tempos passados. Devia ter esperado muito mais do Tolkien.
Quando dei por mim, estava mergulhada até aos ossos nesta aventura. Porque todo o livro é uma aventura; onde um pequeno Hobbit descobre uma coragem que desconhecia, Galdalf surje vaidoso e enigmático, e treze anões se debatem entre os perigos do caminho e a fome constante que os martiriza. Pude rir-me, mas também se multiplicaram os momentos de angústia. Um dragão que guarda um tesouro não parece uma premissa nova para uma aventura, mas treze anões e um pequeno Hobbit não se afiguram inimigos à altura. Anima-me a pessoa em que me torno através da mestria da pena do autor; tudo me parece, por c. 260 páginas, possível. Este mundo que ele nos apresenta parece-me tentador e apaixonante.
A imaginação de Tolkien é deliciosa. Senti-me parte de um conto muito bem contado, distendido e trabalhado ao pormenor. Surpreendi-me por não encontrar violências gratuitas (nem uma única menção a sangue) nem cabeças a rolar, apesar da evidente crueldade e perversão de algumas das personagens. A isto chamo classe, porque o autor arrepia-nos e põe-nos alerta com o mero cheiro do perigo. A parte em que Gollum e Bilbo debatem as adivinhas gelou-me. Imaginava a vozinha da criatura - my precioussss - a reproduzir-se na escuridão de uma gruta, ansioso por ferrar o dente no Hobbit.
Em certos momentos achei-o e inventivo enquanto, noutras, detentor do sentido quase previsível – um tanto simplista - dos contos, cujo final se adivinha facilmente. Ainda assim é uma construção de excelência que surpreende em certos momentos. Sobretudo as personagens são extremamente bem construídas e multifacetadas, multidimensionais e ricas em geral. Não é fácil distinguir treze anões pelas suas particularidades, mas o Tolkien consegue-o!
Muitas vezes me desencorajaram a ler o autor devido à “exaustão” com que se reproduzem as descrições ao longo da obra. Eu apreciei muitíssimo essas mesmas descrições, que adicionam substância a este mundo saído do seu imaginário, e acrescento que a minha maninha pequena se deixou igualmente envolver pelos trechos que lhe fui lendo, assustando-se e animando-se com os sustos e as vitórias das personagens. Não se deixem amedrontar pelos dizeres acerta de obstáculos à leitura destas obras. Mal posso esperar para ler o II e o III volumes do Senhor dos Anéis.

PS - Adquiri o livro no dia 16 de Dez. a 13,56€ no Continente, com 40% de desconto sobre preço de autor. Também o I Volume da Trilogia do Anel estava lá a 12,00€ e qualquer coisa. Vale bem a pena!

PS II - Para o custo da edição, tem demasiadas gralhas!

PS III - Pergunto-me como pensam retalhar este livrinho em 3 filmes de 2 horas e meia cada...?
Classificação: 4,5****/*

#67 JAMES, E.L., As Cinquentas Sombras de Grey

Sinopse: As Cinquenta Sombras de Grey é um romance obsessivo, viciante e que fica na nossa memória para sempre. Anastasia Steele é uma estudante de literatura jovem e inexperiente. Christian Grey é o temido e carismático presidente de uma poderosa corporação internacional. O destino levará Anastasia a entrevistá-lo para um jornal universitário. No ambiente sofisticado e luxuoso de um arranha-céus, ela descobre-se estranhamente atraída por aquele homem enigmático, sombrio, cuja beleza corta a respiração. Voltarão a encontrar-se dias mais tarde, por acaso ou talvez não. O implacável homem de negócios revela-se incapaz de resistir ao discreto charme da estudante. Ele quer desesperadamente possuí-la. Mas apenas se ela aceitar os bizarros termos que ele propõe... Anastasia hesita. Todo aquele poder a assusta – os aviões privados, os carros topo de gama, os guarda-costas... Mas teme ainda mais as peculiares inclinações de Grey, as suas exigências, a obsessão pelo controlo… E uma voracidade sexual que parece não conhecer quaisquer limites. Dividida entre os negros segredos que ele esconde e o seu próprio e irreprimível desejo, Anastasia vacila. Estará pronta para ceder? Para entrar finalmente no Quarto Vermelho da Dor?

Opinião: Visto que a minha melhor amiga - que costumam levar o seu tempo a ler um livro - leu este “Cinquenta Sombras” em meia dúzia de dias e o declarou de dificuldade 0, sucumbi à curiosidade. Já suspeitava de que o conteúdo seria uma tristeza pegada e imaginei-me a fazer uma review suculenta a respeito do facto de a senhora ter presenteado o mundo com uma obra medíocre (calma, medíocre significa de qualidade mediana) - miserável - e ter enriquecido desse modo. Porque o sexo vende. Porque o que é fácil é acessível a todos. Porque prometia “sombras”, um homem cativante e, talvez para alguns, porque é um fanfic do Twilight. Graças a isto fiquei mais rica como pessoa; agora sei o que é um fanfic. Mas sou obrigada a pedir que me perdoem por ter tido tão pouca resistência a este best-seller, e até por não ser capaz de destacar todos os momentos dignos de reparo na obra. Estava a fazer-me mal à saúde...


Eu desconfio sempre quando há muito frufru em redor de algo - porque o que é do acesso comum geralmente tem standards muito baixos. Adolescentes excitadas, mulheres casadas que consideraram um escândalo de secretismo e ousadia adquirirem esta obra e lê-la no barco a caminho do trabalho. E ao menos considero que a E.L.James ensinou muita gente a ler - ao menos isso!
Bom, desisti, como não poderia deixar de ser, porque senti que me torturava mentalmente, na página 20. Li conteúdos semelhantes no “I’m In Love With a Pop Star” da Margarida Rebelo Pinto, mas na altura tinha 13 anos e, mesmo a custo, lá acabei o livro. Agora, dez anos depois, sou incapaz de dedicar o meu precioso tempo a coisas que me magoam o intelecto, por muito que prometessem uma review hilariante.
Desfolhando o restante livro, descobri que a deusa interior da senhora dança salsa com passinhos de merengue e, com isto, retorci-me e fechei definitivamente o livro. O senhor é aquilo que os brasileiros chamam um “babaca”. Há muito que sei que o maior poder é o daquele que pode, mas não faz. Uma pessoa que dá ordens atrás de ordens tem graves problemas de autoridade e a sua personalidade berra que, outrora, o pisaram e bem. Não é preciso ser psicóloga para adivinhar isso acerca do Sr. Grey, nem forçar-me a 500 páginas de tortura mental.

Em conversa com a minha amiga descobri algumas coisas preocupantes e ridicularizantes, adversas à verdade ou já do campo da ficção surreal.

A senhora tem um orgasmo na primeira vez? Hum.
A senhora toma uma primeira pílula e remove imediatamente o preservativo das brincadeiras? Não me admira que hajam fatinhos de bebés a dizer “Há nove meses atrás a minha mãe leu o Fifty Shades of Grey”...


Enfim.
Dá que pensar.

Classificação: 1*

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Cem Anos de Tortura


Hoje fui amplamente surpreendida por uma mensagem privada de um membro do Goodreads, que veio precisamente no rescaldo de algumas conclusões que tirei ontem.  O conteúdo do texto é o seguinte:

«Uma "escritora" que, independentemente do "bom" ou "mau" gosto dá 2 ao Cem Anos de Solidão e que ainda tem a pretensão de dizer que nasceu para escrever. 

Ri-me muito.»

Para quem não sabe, no Goodreads atribuem-se classificações de 1/5 aos livros lidos, conforme os critérios de cada um. Qual é o meu espanto quando me dou conta das implicações que não gostar dum escritor que ganhou um Nobel poderiam ter no meu percurso de (pretensiosa) “escritora”!

Quando li o Cem Anos de Solidão teria quê? Quinze anos? Aos quinze anos um livro do Nicholas Sparks parecia-me soberbo, enquanto um do Garcia Marquez poderia parecer-me facilmente aborrecido. Poderia até tentar justificar o meu “2” ao Cem Anos de Solidão deste modo. Mas a verdade é que este jovem veio estabelecer um pararelismo entre a minha incompetência como escritora – ter-me-á ele lido? – e o muito que o livro me exasperou. Nestes preâmbulos, e recordando-me bastante bem da sensação que o livro me passou, sou obrigada a confessar que a minha opinião quanto ao livro se espelha no seguinte comentário de um utilizador goodreadeano:

«So I know that I'm supposed to like this book because it is a classic and by the same author who wrote Love in the Time of Cholera. Unfortunately, I just think it is unbelievably boring with a jagged plot that seems interminable. Sure, the language is interesting and the first line is the stuff of University English courses. Sometimes I think books get tagged with the "classic" label because some academics read them and didn't understand and so they hailed these books as genius. These same academics then make a sport of looking down their noses at readers who don't like these books for the very same reasons. (If this all sounds too specific, yes I had this conversation with a professor of mine).

I know that other people love this book and more power to them, I've tried to read it all the way through three different times and never made it past 250 pages before I get so bored keeping up with all the births, deaths, magical events and mythical legends. I'll put it this way, I don't like this book for the same reason that I never took up smoking. If I have to force myself to like it, what's the point. When I start coughing and hacking on the first cigarette, that is my body telling me this isn't good for me and I should quit right there. When I start nodding off on the second page of One Hundred Years of Solitude that is my mind trying to tell me I should find a better way to pass my time.»

By Adam on Goodreads.

Assombrou-me a associação de ideias deste jovem: agora apreciar um autor que uma qualquer entidade de cultura designou como de qualidade é requisito para nós próprios virmos a ter algum valor na área? Teria o Da Vinci apreciado a arte do Picasso se os dois se tivessem algum dia conhecido? Ou seria suficientemente mente aberta para dizer “Picasso, o teu Guernica é um 2 porque o abomino pessoalmente, e só é 2 porque te reconheço o génio”.
Mas, analisando algumas obras lidas pelo mesmo jovem, enveredo numa curiosa constatação: tendo lido quase sobretudo autores clássicos (aqueles que “alguém” designou de bons e que ele acatou), omitiu as leituras dos “comuns mortais” ou, de facto (o que é ainda mais lamentável), não os leu. Tolstoi, Dostoievksy, Freud, Camões, Kafka, Neruda, Steinbeck, Pessoa – com todas estas leituras no seu currículo, não é difícil adivinhar que estamos perante alguém que se tem a si próprio como um intelectual. Não lhe chamemos pretensioso, mas eu alerto para o risco de nos debruçarmos sobretudo – e de peito aberto – para aquilo que “alguém” designou que era bom. Para aquilo que “alguém” disse que deveríamos ler incontornavelmente. Porquê conceder a alguém – à sociedade, à tribuna dos Nobels que seja – o direito de nos designar os lugares literários a visitar? E porquê fecharmos a mente tão jovens àquilo que é a livre percepção de cada um face a escritores que a maioria idolatra, quando a maioria está tantas vezes cega ou errada?

Com isto não pretendo questionar a qualidade dos referidos autores/obras literárias. Quem sou eu para fazê-lo ou para enviar cartas ao Fernando Pessoa do início do século XX e dizer-lhe que, se não gosta de Tolstoi, jamais será alguém na escrita? Ainda para mais fiquei com a percepção de que este jovem se tem certamente em muito boa conta e é muito orgulhoso da sua bagagem cultural. Espero que a idade o torne mais flexível e lhe abra a mente – já que tanta variedade de leituras só serviu para lhe dar a ideia errada de como funciona a arte e de lhe que as percepções pessoais são questionáveis – e que páre de pensar que é não questionando Darwin que abrimos o nosso caminho no naturalismo.

Como aparte felicito a Helena Barbagelata (21 anos) que venceu ontem o Prémio Literário de Poesia e Ficção de Almada, vertente “Poesia” com “O Mar dos Deuses” (se não estou em erro). Também a ela lhe reconheço o génio, porque as palavras da sua autoria que foram citadas durante a cerimónia soaram belas, arcaicas, quase exóticas, estranhas e de um talento inegável. Eu, qual burra a olhar para o palácio, não compreendi uma linha – uma reviravolta emocional – do que foi dito, mas houve muitas lágrimas e aplausos. Sendo obrigada a classificar a sua obra, dar-lhe-ei 5 porque nem sob a mira de uma arma conseguiria imitar-lhe os trejeitos literários? Ou serei obrigada a dar-lhe 2 porque a cultura, na minha modesta visão, deve ser obra de compreensão (democracia e acessibilidade) e não de cega admiração, e na realidade eu não senti nada?

A autora é jovem e multifacetada (pinta divinamente) e desejo-lhe toda a sorte do mundo, até porque engrandece o nosso concelho de Almada. Espero que surjam todas as oportunidades adequadas à evidente imensidão do seu talento...




La Belle Inconnue, by Helena Barbagelata


segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

»Plano de Leitura de Dezembro/Relatório de Novembro


1 - Acabar O Último Cabalista de Lisboa (Richard Zimler)
2 - Ler o Caim (José Saramago)
3 - Ler O Aroma das Especiarias (Joanne Harris)
4 - Ler Os Pilares da Terra I (Ken Follett)


Clube de Leitura:
1 - Histórias de um Portugal Assombrado
2 - Os Anos Perdidos
3 - Noite de Reis

A aguardar o anúncio das obras que me cabem p/ Dezembro.

Desafio de Novembro: incompleto


Li 248/368 páginas d'O Sedutor e terminei-o
Li 352/352 páginas do Sedução Intensa e terminei-o
Li 688/688 páginas d'O Grande Amor da minha vida e terminei-o
Li 398/398 páginas do Lembro-me de ti e terminei-o
Li 241/330 páginas do Sob o Céu de Paris e terminei-o
Li 256/256 páginas d'A Culpa é das Estrelas e terminei-o
Li 46/414 páginas d'O Último Cabalista de Lisboa

Total: 2229 páginas